Tensão–Deformação
Tensão–Deformação (uniaxial): do conceito ao projeto
Para quem projeta, compreender a curva \(\sigma\)–\(\varepsilon\) é base: a partir de um ensaio simples de tração/compressão extraímos rigidez (trecho elástico), limite de escoamento, resistência à tração (UTS), estricção e ductilidade. Com isso escolhemos materiais, definimos margens de segurança e verificamos componentes.
1) Definições diretas e por que importam
Tensão é força por unidade de área. Em tração uniaxial usa-se a tensão de engenharia \(\sigma=P/A_0\), em que \(P\) é a força e \(A_0\) a área inicial. Unidades: MPa no SI (1 MPa = 1 N/mm²); em catálogos também aparecem psi e ksi (1 MPa ≈ 145,038 psi; 1 ksi ≈ 6,895 MPa).
Deformação é a variação relativa de comprimento. Engenharia: \(e=\Delta L/L_0\). Grandezas verdadeiras (para análise além do elástico e até a estricção): \(\varepsilon_\mathrm{v}=\ln(1+e)\) e \(\sigma_\mathrm{v}=P/A_\text{inst}\). Antes da localização, com volume quase constante, vale \(\sigma_\mathrm{v}\approx\sigma(1+e)\).
Interpretação: \(E\) é a rigidez do material (inclinação da parte proporcional). Depende do tipo de ligação e da densidade atômica; é praticamente constante até o escoamento. No projeto, \(E\) governa deslocamentos/deflexões e frequências naturais.
Isotrópico 3D (Lei de Hooke): \(\sigma_{ij}=2G\,\varepsilon_{ij}+\lambda\,\varepsilon_{kk}\delta_{ij}\), com \(G=\dfrac{E}{2(1+\nu)}\) e \(K=\dfrac{E}{3(1-2\nu)}\).
Boas práticas: determinar \(E\) com extensômetro (ASTM E8/ISO 6892-1), registrar \(\nu\) adotado, unidade sempre em MPa; converter quando necessário.
2) Curva \(\sigma\)–\(\varepsilon\): leitura com precisão
- Região proporcional (elástica): reta de inclinação \(E\). Termina no limite proporcional, quando a linearidade se perde.
- Escoamento: início de deformação plástica mensurável. Em aços baixo C pode haver platô com \(R_{eH}\) (superior) e \(R_{eL}\) (inferior). Quando não há platô nítido, adota-se \(R_{p0,2}\) (offset 0,2%).
- Encruamento: a tensão aumenta com a deformação plástica por interação de discordâncias; leis típicas: Hollomon \(\sigma_\mathrm{v}=K\,\varepsilon_\mathrm{v}^{\,n}\) e Ramberg–Osgood.
- UTS (\(R_m\)): máxima tensão de engenharia (pico da carga). Marca a transição para a estricção.
- Estricção (necking): formação do “pescoço”, redução local de área e concentração da deformação. Inicia na condição da carga máxima (Seção 3).
- Ruptura: fim do ensaio. Reporte também a redução de área \(Z=(S_0-S_u)/S_0\) e o alongamento percentual à ruptura.
3) Estricção e condição da carga máxima (sin.: “Considère”)
Estricção é a localização da deformação com redução acentuada de área. O início da estricção difusa ocorre quando a capacidade de encruamento iguala a perda de seção.
Hollomon \(\sigma_\mathrm{v}=K\,\varepsilon_\mathrm{v}^{\,n}\) ⇒ deformação verdadeira uniforme no pico \(\varepsilon_\mathrm{v}^{\*}=n\).
Consequência: a conversão engenharia↔verdadeira com volume constante vale até a estricção; depois a análise é local (no “pescoço”).
4) Tresca × von Mises (critérios de escoamento multiaxial)
Quando há vários componentes de tensão, usamos uma tensão equivalente e comparamos com \(\sigma_y\) medido em tração. Os critérios clássicos para metais dúcteis isotrópicos são:
- Em cisalhamento puro: von Mises ⇒ \(\tau_y=\sigma_y/\sqrt{3}\); Tresca ⇒ \(\tau_y=\sigma_y/2\) (mais conservador).
- Geometria do domínio de escoamento: círculo no plano-\(\pi\) (von Mises) vs. hexágono (Tresca).
- Na prática, von Mises ajusta melhor dados de metais policristalinos; Tresca é útil como limite seguro ou para cálculo manual rápido.
5) Normas e boas práticas
- ASTM E8/E8M e ISO 6892-1: corpos de prova, taxas (na ISO prioriza-se controle de deformação), determinação de \(E\), \(R_{eH}/R_{eL}\), \(R_{p0,2}\), \(R_m\), alongamento e \(Z\). Corpos proporcionais: \(L_0=5{,}65\sqrt{S_0}\).
- Metrologia: extensômetro no trecho elástico; correção de conformidade; alinhamento; temperatura; registrar orientação (RD/TD/ND) e condição metalúrgica (TT/solda/laminação).
- Unidades: padronize em MPa (vírgula decimal, ponto de milhar). Ofereça conversões quando necessário.
6) Calculadoras (o que fazem e quando usar)
- A) Conversor: MPa, Pa, psi e ksi — para ler catálogos internacionais.
- B) \(\sigma=F/A_0\): estima tensão de engenharia em barras/chapas com seção simples.
- C) Eng↔Verdadeira: calcula \(e\), \(\varepsilon_\mathrm{v}\), \(\sigma\) e \(\sigma_\mathrm{v}\) — útil até o início da estricção.
- D) \(\sigma_{0,2\%}\): obtém limite por Ramberg–Osgood quando só há dados de \(E,K,n\).
- E) von Mises (plano): tensão equivalente para comparação com \(\sigma_y\) em estados planos.
A) MPa ↔ Pa ↔ psi ↔ ksi
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1 MPa = 145,0377 psi
1 MPa = 1 N/mm²
Padronize o relatório em MPa
B) \(\sigma = F/A_0\) (engenharia)
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1 MPa = 1 N/mm²
C) Engenharia ↔ Verdadeira
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D) \(\sigma_{0,2\%}\) (Ramberg–Osgood)
Modelo: \(\varepsilon = \sigma/E + (\sigma/K)^{1/n}\). Resolve \(\sigma\) para \(\varepsilon=0,002\).
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Estimativa; o valor normativo vem do ensaio real.
ISO 6892-1 · ASTM E8
Informe a condição metalúrgica
E) von Mises (estado plano)
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\(\sigma_\mathrm{eq}\ge\sigma_y \Rightarrow\) plastificação
Plano: \(\sigma_z=0\)
7) Glossário PT–EN
| Português | Inglês | Observação |
|---|---|---|
| Tensão (engenharia) | Engineering stress | \(\sigma=P/A_0\) |
| Deformação (engenharia) | Engineering strain | \(e=\Delta L/L_0\) |
| Tensão verdadeira | True stress | \(\sigma_\mathrm{v}=P/A_\text{inst}\) |
| Deformação verdadeira | True (log) strain | \(\varepsilon_\mathrm{v}=\ln(1+e)\) |
| Módulo elástico | Young’s modulus | \(E\) |
| Coef. de Poisson | Poisson’s ratio | \(\nu\) |
| Limite de escoamento | Yield strength | \(\sigma_y\) ou \(R_{p0,2}\) |
| Resistência à tração | Ultimate tensile strength (UTS) | \(R_m\) |
| Estricção (estricamento) | Necking | redução local de área |
| Condição da carga máxima (Considère) | Maximum load condition (Considère) | \(d\sigma_\mathrm{v}/d\varepsilon_\mathrm{v}=\sigma_\mathrm{v}\) |
| von Mises | von Mises yield criterion | energia de distorção |
| Tresca | Tresca (maximum shear) | máx. cisalhamento |
| Redução de área | Reduction of area | \(Z=(S_0-S_u)/S_0\) |
8) Referências essenciais
- ASTM E8/E8M — Standard Test Methods for Tension Testing of Metallic Materials.
- ISO 6892-1 — Metallic materials — Tensile testing — Part 1: Method of test at room temperature.
- Dieter, G. E. — Mechanical Metallurgy, 3ª ed., McGraw-Hill.
- Dowling, N. — Mechanical Behavior of Materials, 4ª ed., Pearson.
- Hertzberg, R. — Deformation and Fracture of Engineering Materials, Wiley.
- Hosford & Caddell — Metal Forming: Mechanics and Metallurgy, Cambridge.
- Reed-Hill & Abbaschian — Physical Metallurgy Principles.